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O mal-estar na civilização: atualidade de um texto[1]<> |
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Marilita Lúcia Calheiros de Castro No texto que vamos examinar, Freud não faz distinção entre civilização e cultura. Para ele a cultura comportaria dois aspectos diferentes. Por um lado, todo o saber e o poder conquistados pelos homens para chegar a dominar as forças da Natureza e obter os bens materiais com que satisfazer as necessidades humanas; e, por outro, todas as organizações necessárias para regulamentar as relações dos homens entre si, e em particular a distribuição dos bens materiais alcançáveis. Poderíamos dizer então que para a psicanálise, a cultura é definida em oposição à natureza: a humanidade do homem (o seu caráter especificamente humano) desenvolve-se aos poucos, levando-o, através de um complexo processo de aprendizado (cultural), a ingressar no universo simbólico. Dito universo seria caracterizado pelas codificações, combinações e permutações dos elementos que o constituem e, sendo não biológico, transcenderia o reino da natureza, transformando o homem em um animal simbólico. Tal diferenciação é muito importante em psicanálise e pode ser situada ao lado da que existe entre instinto e pulsão: à medida que a criança, em suas vivências e anseios, se afasta da estrita programação instintiva, desenvolvendo anelos e desejos pulsionais, ela ascende a uma dimensão outra, a humana. Mas este universo simbólico, naturalmente precede a criança, pois já existe quando de sua concepção, devendo esta se iniciar aos poucos nesta nova dimensão, intersubjetiva, par excellence. Para que isto seja possível duas condições são obrigatórias: os pais, os familiares, os adultos que cercam a criança têm que ajudá-la para que esta evolução seja possível. Eles têm que abrir mão de relações imaginárias possessivas que ameaçam encerrar a criança em redomas esterilizantes. A criança tem que conseguir sair dessas redomas dualistas, para abrir-se ao plano das relações humanas, para continuar seu processo de maturação, para transformar-se em ser falante, em um sujeito. Por outro lado, a criança também tem que querer esta evolução, tem que se dispor a isto, tem que se desfazer de algo. Mas de que teria que se desfazer a criança? Para Freud, este seria o preço que cada um de nós teríamos que pagar pela cultura, pelo processo civilizatório. A criança teria que renunciar a determinados desejos infantis: aos desejos de onipotência, de prazer permanente, de plenitude, de gozo absoluto... Isto é descrito por Freud como uma renúncia à pulsão, a um prazer pulsional, para que o trabalho da cultura possa desenvolver-se. Entretanto, esta renúncia encontra sérios obstáculos, desde que o anseio de prazer pulsional assedia a economia psíquica da criança (e também do adulto) com uma insistência avassaladora, colocando permanentemente em perigo seus processos de adaptação, senão sua sobrevivência. Só após um árduo trabalho consigo mesmo --- para o qual o concurso dos pais, como representantes da lei, é indispensável --- é que a criança conseguirá, pouco a pouco, pôr em cheque a impetuosidade incondicional de suas pulsões, colocando em diques o fluxo inexorável dos desejos que delas emanam, dirigindo-os para objetos e objetivos socialmente integradores. A noção de trabalho aparece desde cedo nos escritos freudianos: em 1900, ele fala do trabalho do sonho, posteriormente do trabalho do chiste, do luto... Implicando todas estas noções em um processo econômico ou energético interno, que visa a transformação de certas constelações intrapsíquicas, notadamente a transformação do processo primário em secundário. Isso daria lugar tanto às formações do inconsciente, como as produções culturais, artísticas, científicas, etc. Esta noção de trabalho aplica-se não somente à esfera psíquica, mas também à obtenção de bens culturais. Poderíamos dizer então, que para a psicanálise, a cultura é formada pelas produções simbólicas efetuadas pela interação humana sob determinadas condições adversas; o preço que se paga por ela é o preço do trabalho ao qual estamos condenados, desde nossas origens, ou seja, desde a expulsão do paraíso. Ao falar das origens devemos vinculá-la ao processo de maturação da criança, relacionando este desenvolvimento ontogenético ao desenvolvimento filogenético, comparação tão grata a Freud, em conformidade, aliás, com o espírito de sua época. Retornemos, entretanto, ao preço da cultura. Na última fase de sua vida, três fenômenos clínicos e sociais, chamaram a atenção do pai da psicanálise: a angústia, a agressividade e a culpabilidade. Neste texto, ele desenvolve uma visão da cultura, do processo civilizatório, como marcados pela renúncia e por aquela culpabilidade resultante dos desejos pulsionais reprimidos (aqui não se trata de recalque) sob o impacto da sociedade. O que Freud quer dizer é que: o mal-estar que se manifesta na cultura, isto é, nas sociedades civilizadas modernas e que se traduz por uma busca infeliz e infantil da felicidade, corresponde ao sentimento de insatisfação que os homens experimentam face à civilização e aos seus progressos. A civilização seria encarada simultaneamente como obra dos homens e como processo que os ultrapassa; estes a veriam com estranheza, e ela passaria, por assim dizer, por cima deles, como um rolo compressor. A repressão das pulsões, não só seria a condição sine qua non, do processo civilizatório ou cultural, mas também o seu modus operandi. Nesta repressão intervêm dois movimentos: uma luta interna a Eros (pulsão de vida) que consistiria na instauração de uma oposição entre as unidades maiores e as menores, ou seja, entre a felicidade individual e a da humanidade; e uma luta entre as pulsões, entre Eros e Tanatos, a pulsão de morte. Essas duas lutas conflitantes seriam complementares. Didaticamente poderíamos dizer que a agressividade (que pertence à pulsão de morte) deve ser reprimida, ou expulsa para fora do sujeito; para que isso seja possível, Eros deve ser inibido quanto ao seu objetivo diretamente sexual, isto é, deve ser sublimado. A luta entre Eros e a agressividade humana acompanha-se, pois, de um movimento, necessário, de canalização e, se possível, sublimação da energia libidinal, sendo que neste processo é o indivíduo que tem que ser sacrificado em prol da sociedade. Passemos a diferença conceptual entre repressão e recalque. A primeira atua ao nível mais social, mais externo ao sujeito, sendo, portanto, mais consciente. A legislação de uma determinada sociedade preconiza e encena vários tipos de repressão, regulamenta as boas condutas dos cidadãos e pune, policial e judicialmente, as más condutas. Toda criança tem que se acostumar à presença da lei em sua vida, lei normativa e sempre, necessariamente repressiva: não matarás, se não... O recalque em oposição corresponde a um processo inconsciente: o sujeito recalca contra sua própria vontade, não o percebe, o faz por assim dizer, automaticamente, quando se lhe apresenta um material conflitivo reprovado por suas instâncias censoras. O recalque é, pois uma conseqüência da repressão externa, interiorizada sob a forma do superego. Para absorver a lei, isto é, para socializar-se a criança tem que começar a recalcar os seus impulsos violentos, os seus anseios egoístas; ela deve de alguma forma, padronizar-se --- o que não quer dizer, que tenha que renunciar a toda e qualquer individualidade: um excesso de sublimação adaptativa é tão mutilador quanto a recusa em obedecer a lei. Na repressão das pulsões como condição para a vida em sociedade, encontramos o bem conhecido pessimismo freudiano, compartilhado pela psicanálise até hoje. Mas é preciso entendê-lo. Em psicanálise não se acredita no ideal de uma sociedade não repressiva: a repressão é inevitável, é necessária e estruturante, tanto para a criança quanto para a sociedade; não há vida social (nem criatividade) sem lei, e a criança para poder crescer e humanizar-se, tem que encontrar um, vários, muitos nãos ao seu redor, impondo-lhe os limites dos quais precisa para integrar-se socialmente, ou para simplesmente sobreviver. O problema é como fazer isto, é saber qual a medida certa para evitar traumatismos... Pois bem, a resposta de Freud é que não existe tal medida certa; os traumatismos são inevitáveis, e isto por duas razões: primeiro por causa da permanência da agressividade e da destrutividade humanas, independentemente de tal ou qual forma de organização social, independente também do grau consciente e perceptível da repressão em uma determinada sociedade; em segundo lugar, este ceticismo baseia-se na experiência clínica, da inconciliabilidade da sexualidade humana, do seu funcionamento pulsional, dos desejos que suscita para com a organização social. Isso, entretanto, não se prende apenas à presença de interdições ou às contingências de determinada organização psicossocial; ela caracteriza, segundo a psicanálise, o cerne da sexualidade humana em si, e não em relação a tal ou qual fator externo. Graças à renuncia pulsional, isto é pela aceitação da castração é que a cultura se torna possível, que leis podem ser formuladas para organizar a coexistência dos homens. No entanto, há aí, uma circularidade, pois a lei, é oriunda da cultura: ela se torna possível e operante somente dentro de uma estrutura cultural, de uma estrutura simbólica --- o que por sua vez pressupõe a castração. A castração é então a pedra angular da compreensão psicanalítica do edifício cultural. Atentado contra a onipotência do homem, ela é coextensiva de uma ordem simbólica particular e restritiva, que corresponde a uma ordem lógica, a lógica fálica, baseada na diferença dos sexos como marca primeira do limite absoluto. Renúncia, castração, limite, trabalho, culpa: esta é a série que, com equivalências variadas, fundamenta a cultura e constitui o seu preço. O homem a faz e a sofre, condenado a submeter-se a ela se quiser tornar-se criativo, se quiser tornar-se Homem. Essas equivalências, Freud as afirma repetidas vezes e em contextos bem diferentes, clínicos, metapsicológicos, históricos, especulativos, míticos. É a respeito do sentimento de culpa, ou seja, da questão da culpabilidade que esta complexidade aparece com maior nitidez. Se a culpabilidade aparece permanentemente no trabalho clínico, Freud levou tempo para perceber todo o seu alcance. Na neurose obsessiva e na melancolia, ela representa, por assim dizer, a mola mestra da patogênese das manifestações clínicas; no entanto, as auto-acusações insistentes que caracterizam esses dois quadros psicopatológicos não se referem a fatos concretos, observados, ocorridos no passado desses pacientes; não obstante, elas contêm, segundo a análise freudiana, algum traço histórico de verdade subjetiva cujos ecos constituem a trama inconsciente da vida do sujeito. Na realidade, tanto o neurótico como o normal, esta distinção sendo apagada progressivamente por Freud, ao longo de sua obra --- pode ser inocente, talvez o seja em atos, mas nunca o será em pensamentos: pode não ter atos correspondentes, mas será culpado ao nível de seus desejos, ao nível de suas fantasias. Como no inconsciente, no processo primário, o pensamento opera de modo onipotente, não há consideração ao princípio de realidade, nem, portanto, critérios ou meios para discernir entre fantasia e realidade; perante suas instâncias morais e ideais, os desejos de incesto, de parricídio e de violência transformam, quer queira quer não, o sujeito em culpado. Esta culpabilidade, decorrente do conjunto de representações pulsionais fantasiosas e reprovadas acarreta aqueles fenômenos clínicos bem conhecidos que são a reação terapêutica negativa, a conduta de fracasso, a incapacidade de assumir sucessos, o crime por sentimento de culpa, as mil formas de expiação, de reparação e de formações reativas... Todas elas satisfazem de algum modo a necessidade inconsciente de punição, encenada de múltiplas maneiras a nível individual e retomada nas grandes manifestações coletivas desvendadas pela psicanálise. Sérgio Paulo Rouanet, ex-ministro da educação e diplomata brasileiro, em seu livro O mal-estar na modernidade, instiga a psicanálise a promover um modelo ideal de ser humano. Para Rouanet, seguindo os princípios do programa Iluminista (individualidade, universalidade e racionalidade): A psicanálise deveria difundir como ideal de personalidade o paradigma do homem plenamente autônomo, que depois de perfazer todas as etapas de sua ontogenese (da fase oral a genitalidade), e tendo passado pelas identificações sucessivas graças às quais assimilou as normatividades de sua família, do seu grupo e da sua sociedade, atingiria a fase em que poderia pensar por si mesmo, não só aceitando ou rejeitando, por sua própria decisão, as normas e os valores que lhe foram inculcados, como transcendendo quaisquer normas e valores particulares, em nome de princípios universais de justiça. Esse homem autônomo jamais perderia sua individualidade, seja na massa, seja na comunidade; não seria nem um conformista da sociedade de consumo nem o membro de uma totalidade holista. À psicanálise também caberia difundir a universalidade, redefinindo os ideais coletivos num sentido universal, desinvestir os vínculos particularistas, sobre-investir os vínculos entre as nações e entre as pessoas, independentemente das nações. A paz deveria ser o ideal supremo. Quanto à racionalidade, a psicanálise, mais do que nunca aparece como herdeira do ideal iluminista da maioridade, do estado adulto no qual a razão assume o papel que lhe cabe na administração do aparelho pulsional, dissolvendo a culpa e esvaziando o mal-estar. Será que poderíamos atribuir à psicanálise tão árdua e gigantesca tarefa? Não podemos esquecer que desde os primeiros artigos, na A Psicoterapia da Histeria --- ao responder às objeções das pacientes, que lhe perguntavam: Ora, se o senhor mesmo diz que minha doença está relacionada com as circunstancias e fatos de minha vida, como acredita poder ajudar-me? --- Freud dizia: ao destino provavelmente seria mais fácil aliviá-la de sua enfermidade, mas creio que poderíamos ganhar muito se conseguíssemos transformar seu sofrimento histérico numa infelicidade comum. Infelicidade que para ele era devida à nossa própria constituição, já que o sofrimento nos ameaçaria a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e dissolução, e que nem mesmo pode dispensar a dor e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós nas variadas catástrofes; e, finalmente de nosso relacionamento com os outros homens. Sendo esta talvez a fonte de sofrimento que mais ameaça o ser humano. Na página 166 do Mal-Estar na Civilização, ao falar sobre a origem do superego de uma determinada época cultural, Freud diz que ele se baseia na impressão deixada atrás de si pelas personalidades e pelas idéias dos grandes líderes e mais adiante, afirma que entre as exigências e ideais do superego cultural encontram-se aquelas que tratam das relações dos seres humanos entre si, reunidas sob o epíteto de ética. Segundo Fernando Savater, catedrático de filosofia da Universidade Complutense de Madrid, o último domicílio da opaca senhora, a qual chamamos de ética, foi chez religião católica, mas que dali ela já havia se mudado há muito tempo, sem deixar endereço. Seria a Psicanálise sua nova morada? Na tentativa de obter uma resposta para esta pergunta vamos pensar o mal estar em nossa civilização atual. Será que existe uma relação direta entre o progresso científico e o mal estar social? O discurso científico que atualmente orienta a humanidade é de nascimento recente. Data do século XVII. Desde o surgimento da ciência assistimos a uma transformação radical no mundo, transformação que pode ser vista diariamente através dos efeitos que os avanços tecnológicos introduzem em nossas vidas. Chama a atenção o fato de que desde o início dessa avassaladora corrida para o progresso, nosso mundo tenha sido invadido por objetos que se acumulam como dejetos em espaços chamados de lixeiras. Parece como se o acúmulo de dejetos fosse o sinal da passagem do Homem pelo mundo; pode-se contá-lo em milhões de toneladas. Abrange desde o plástico que não é biodegradável, até o lixo nuclear; desde as embalagens dos alimentos, até as toneladas de ferro-velho que flutuam no espaço ao redor do planeta. Como vimos antes, a transformação do ser humano em sujeito civilizado, também produz um resto, algo que se perde irremediavelmente nessa passagem da natureza à cultura. Dita perda está representada pela renúncia a satisfação das pulsões sexuais e agressivas. O que terá conseqüências na constituição do sujeito, na estruturação de seu desejo e na maneira como ele passará a vida buscando pequenas compensações, numa tentativa de reparar a perda de determinadas satisfações provocada por seu ingresso na civilização. O progresso científico não deixa de ter efeitos concretos sobre o sujeito. Mas, de que sujeito se fala? Fala-se do sujeito que o método científico, devido a seus interesses puramente objetivos, desconhece sistematicamente. A ciência tem pouco ou nenhum interesse na posição subjetiva dos seres humanos.[2] Fala-se aqui, do sujeito que padece as conseqüências deste saber, ainda que seja ele próprio quem faz a ciência. Trata-se do sujeito que renuncia, no momento de seu ingresso na cultura, às suas paixões mais primitivas e que dia a dia, tem que se enfrentar com o mal-estar produzido por tal renúncia. Em fim, da forma mais simples possível, estamos falando do sujeito que sofre, ou se preferem, do sujeito do inconsciente, enquanto inconsciente da causa de seu sofrimento. Deste sujeito a ciência não se ocupa, ela o exclui de seu discurso; ocupa-se apenas de seu organismo: busca mantê-lo vivo, e inclusive, mantê-lo vivo apesar das conseqüências que isto possa ter para ele. Deste sujeito, de sua subjetividade e de sua maneira particular de ater-se a um sofrimento, ocupa-se a psicanálise. Diante do mal-estar criado pela civilização, diferentes e variadas respostas são propostas. Estas vão desde as mais esotéricas até as mais técnicas, passando por todo tipo de terapias. Todas tentam dar uma resposta ao sofrimento humano. Basicamente, podemos reuni-las em três modalidades: as de tipo esotérico ou mágico, as de tipo religioso e as que estão situadas dentro do próprio discurso científico. Será fruto do acaso, que no meio de tanto progresso científico, ocorra tamanha proliferação de discursos esotéricos, religiosos e muitos outros que se denominam terapêuticos? Era de se esperar que a ciência chegasse a deslocar a magia e a religião, mas não foi o que sucedeu. Por que em plena era científica há cada vez mais o surgimento de discursos mágicos e religiosos? O progresso e o mal-estar acompanham a civilização moderna em todos os seus âmbitos. A psicanálise não é mais do que uma, entre todas as respostas a esse mal-estar. Mas sua resposta não é nem religiosa, nem técnica. A psicanálise estaria situada entre a religião e a ciência, o que significa que não é nem uma, nem outra. Ela seria da ordem das Geisteswissennschaften[3] Sua resposta ao mal-estar produzido pela civilização seria uma resposta ética. Mas o que significa isto? Primeiro, que não se trata de uma resposta técnica. A ética é algo que se opõe a qualquer procedimento técnico e por isso se diz que a psicanálise não é um tratamento como os outros, que recorrem a procedimentos técnicos para tratar o sofrimento. Segundo, como se trata de uma resposta ética, aponta para o desejo e para a verdade que habita cada sujeito. A psicanálise procura interrogar a verdade do sofrimento de cada sujeito, sua causa, o porque de um sujeito fixar-se a um sofrimento particular e querer manter-se nele. A verdade que habita cada sujeito é um saber desconhecido por ele: um saber inconsciente. Aquilo que não se sabe, ou melhor, aquilo que não se deseja saber, aquilo que não se deseja saber sobre a causa do sofrimento. Por que disso nada se quer saber? Porque dito sofrimento representa para cada um, um bem muito apreciado, porque com ele obtém-se uma compensação da perda, do sacrifício a que se foi obrigado para ingressar na cultura. O que significa dizer que o sofrimento é uma forma de satisfação na vida e não, como se pensa comumente, que é a felicidade a maior forma de satisfação. Conta-se (Forrester, 1992: p. 166) que em um breve tratamento, Freud teria advertido a Otto Bauer[4], referindo-se aos seus ideais políticos: Não tente fazer os homens felizes, eles não querem a felicidade. E a psicanálise tem nos mostrado que o bem mais apreciado pelo sujeito não é a felicidade, mas a maneira particular como cada um se apega ao próprio sofrimento. Esperar-se -ia que os seres humanos buscassem o prazer e a felicidade na vida, mas não: o ser humano, como se vê na clínica psicanalítica, é um ser que busca a maneira de encontrar um sofrimento que o satisfaça. É como se ele encontrasse a felicidade no mal, o que pode parecer incoerente se visamos apenas a aparência, mas se nos detemos na forma como os seres humanos se conduzem, podemos observar este fato. Agora vejamos, esse sofrimento é particular, pertence a um sujeito, por isso a verdade do sofrimento interrogada pela psicanálise, é uma verdade singular. É uma verdade que a psicanálise propõe a cada um descobrir com um outro, que é o analista, a partir do momento que o sujeito a isso se decide. Não se trata, portanto de uma verdade universal. O que precisamente interessa à psicanálise é o mal estar do ser humano em uma civilização que não lhe assegura o ganho da felicidade. Vimos como à ciência, em seu afán por objetividade e generalidade, não interessa a singularidade do sujeito. A maneira de sofrer faz parte dessa particularidade de cada um. Os efeitos da ciência vão mais na via da universalização, na via que torna todos os sujeitos iguais, reduzindo suas singularidades e peculiaridades. A globalização se vê cada dia no fato de que todos os seres humanos adquirem os mesmos produtos de consumo, vêem o mesmo canal de televisão, estudam as mesmas coisas, fazem uso da mesma tecnologia, etc... O efeito é o apagamento das diferenças e isso faz com que as próprias singularidades protestem, reivindiquem, procurem um modo de existir, de encontrar um lugar próprio no mundo da globalização. Isso é o que nos provam os fenômenos sociais que acompanham a vida moderna, como por exemplo, os regionalismos, os nacionalismos, os sectarismos, os fanatismos, com toda a carga de agressão, guerra e terrorismo que eles comportam, como assistimos atualmente. Algumas concepções da ética propõem estabelecer um código moral que governe a conduta do Homem. A ética é chamada de ciência da moral, arte de dirigir a conduta. É uma palavra que vem do grego ethos e que se traduz habitualmente como caráter. A ética faz parte da produção cultural de uma sociedade e busca a regulamentação dos vínculos recíprocos entre os homens, o que a converte em mais uma das exigências da cultura. Freud concebeu sua ética como um remédio, como uma tentativa terapêutica, como uma maneira de alcançar o que todo o trabalho cultural não havia conseguido: o controle da tendência dos homens a agredirem-se uns aos outros. Temos que levar em conta que tal concepção de ética implica numa doutrina de valores, mas a ética da psicanálise suspende todo e qualquer juízo de valor. Isto significa que a da psicanálise não é uma ética para todos, mas que é uma ética relativa à análise. Toda ética é relativa a um discurso; a ética da psicanálise é apenas uma entre as muitas que existem no mundo. Logo ela não é de aplicação universal. A psicanálise não deve ditar normas de consciência ou de conduta para a vida. Sua ética relaciona-se ao modo como a psicanálise é praticada, ou seja, pela via da palavra, no campo da linguagem. Se existe uma ética da psicanálise, esta não é outra que a do bem dizer. O que isto significa? O dizer do qual se fala não é unicamente dizer palavras, sejam estas eloqüentes, eruditas ou belas; o dizer, tal e como é definido em psicanálise, é o da palavra enquanto fundadora de um fato; ou seja, um dizer que tem conseqüências sobre o sofrimento de um sujeito; um dizer, que tem como efeito uma renúncia ao sofrimento. A psicanálise leva o sujeito a enfrentar-se com a verdade de seu desejo que pode ser um desejo de sofrer o que não significa uma liberação do desejo. Trata-se mais, de uma ética que procura fazer com que o sujeito seja responsável por seu sofrimento e por seu desejo. Isto tem como conseqüência uma subversão do sujeito, isto é, uma mudança de sua posição subjetiva, uma mudança em sua forma de ver o mundo, de tal modo que ele renasce como aquele que sabe a causa de seu desejo e de seu sofrimento. Sendo, portanto, responsável pela posição que ocupa no mundo. E o que tem a ver o desejo com o bem dizer? Pois dizer a verdade sobre o desejo sobre aquilo que se estrutura ao redor de uma falta: só se deseja quando não se tem o que se deseja é algo muito difícil, já que o sujeito o coloca a serviço de seu mal-estar, de seu sofrimento e porque se trata de um desejo inconsciente; de uma verdade não dita. A psicanálise é um discurso que aponta para a verdade como causa do sofrimento do sujeito, de um sujeito que da verdade como causa, não quer nada saber. E finalmente, a ética da psicanálise também faz referência a responsabilidade que têm os psicanalistas, pela presença do inconsciente na cultura. Da existência dos psicanalistas depende também a existência do inconsciente, existência que sabemos precária, desde que o saber inconsciente é desconhecido pelo sujeito. Um saber separado dele, do qual resulta muito fácil fugir, mesmo de suas manifestações: sonhos, lapsos, esquecimentos, sintomas, fenômenos sobre os quais o sujeito se recusa a pensar e a interrogar-se sobre o que podem significar. Ao final, não posso reprimir o desejo de, no rastro de Didier Anzieu e de tantos outros estudiosos da Psicanálise, deitar Freud em meu divã. No início de seu artigo, instado por Romain Rolland, Freud procura uma explicação para o sentimento oceânico, a sensação de algo ilimitado, sem fronteiras. E tenta extrair tal explicação da teoria psicanalítica do desenvolvimento humano. Fala que embora o ego nos pareça autônomo e unitário, distintamente demarcado de tudo o mais, esse é apenas um aspecto de fachada, pois para dentro ele se continua sem qualquer delimitação nítida, em uma entidade mental inconsciente que designamos como id. Mas admite que há um estado, que não pode ser considerado patológico, em que o ego como que se funde com o ego do outro. Isso ocorreria no auge do sentimento amoroso, quando a fronteira entre o ego e o objeto estaria ameaçada de desaparecimento. Mas mesmo isso, não passaria da repetição de uma situação já vivenciada em nosso passado infantil, quando a criança não distingue seu ego do mundo externo como fonte de sensações. Freud então se pergunta: seria razoável dizer que tal sentimento de unidade com o objeto pode ainda existir, lado a lado, com o sentimento de autonomia do ego adulto, até que uma experiência amorosa o faça reviver? Para provar que isso é possível ele usa como ilustração uma de suas metáforas arqueológicas e escolhe entre tantas cidades antigas por ele visitadas, aquela que lhe foi mais difícil adentrar e cujo nome, ao revés, representa um fenômeno apenas observado entre nós, seres humanos: Roma/Amor. Sabemos pelo próprio Freud o quanto ele retardou a viagem à cidade amada, e não por culpa da civilização que lhe fornecia os meios de transporte necessários para atingi-la, mas devido aos seus conflitos interiores. Em carta a Fliess datada de 03.12.1897, ele diz que seu anseio por Roma é profundamente neurótico e compara-se a Aníbal que também não tinha conseguido entrar em Roma. Quase um ano mais tarde, em outubro, o desejo pela cidade eterna vai se tornando cada vez mais torturante e Freud, ainda deprimido com a queda de sua primeira teoria, diz que a única coisa que faz atualmente é estudar a topografia de Roma. Cinco meses depois, ele chega a dizer que renunciaria ao magistério, caso Roma se tornasse possível. Em agosto do mesmo ano, 1899, ele convida o amigo a passar dez dias com ele na capital italiana. Em janeiro de 1901 a viagem ainda não se concretizou e novamente Freud fala na tentação de conhecer Roma, apesar de nada ter sido conquistado. Fliess interpreta a alusão como um convite impróprio face aos termos atuais do relacionamento entre ambos. E Freud confirma isso em sua resposta de fevereiro, dizendo que por trás dela existia, sem dúvida, um lembrete da promessa que o amigo lhe fizera, em épocas melhores, de um congresso em solo clássico. É como se a cidade proibida fosse uma espécie de prêmio ou compensação que ele receberia se conquistasse algo (em termos científicos?) ou se renunciasse a algo (em termos pulsionais?). Nessa carta o distanciamento entre os dois amigos já é patente, os próprios congressos haviam se tornado relíquias do passado, diz Freud a certa altura. E finalmente, em setembro, Freud penetra em Roma acompanhado por seu irmão Alexandre e escreve a Fliess. Parece algo decepcionado, diz que isto se deve ao fato de haver sido um desejo cuja realização foi por demais esperada. Trata-se da carta que dará início ao rompimento. Queixa-se Freud: ... Para quem continuo a escrever? Se, no instante em que uma interpretação minha o deixa pouco a vontade, você fica pronto a concordar em que o leitor de pensamentos não percebe nada no outro, meramente projetando seus próprios pensamentos, você também já não é mais minha platéia e deve encarar todo o meu método de trabalho como tão imprestável como os outros o consideram. Ao voltar de Roma, Freud decide empreender todos os tramites necessários para sua nomeação como professor, cuja espera já durava 4 anos, e que se devia mais à sua inércia do que ao alegado anti-semitismo. Seria esta a compensação pela renúncia a amizade com Fliess? Amizade carregada de sublimação andrófila. Lembremos que em certa passagem do Mal-Estar Freud diz que as amizades inibidas em seus fins são partícipes incontestáveis do processo civilizatório. À guisa de conclusão, seguindo o pensamento de Peter Gay, poderíamos dizer que a contribuição específica de Freud à reflexão sobre a política consiste na idéia das paixões reprimidas pela cultura. O Mal-Estar pode ser encarado então, como uma teoria psicanalítica da política. Mas não podemos esquecer que Freud não era um teórico político, um historiador das religiões, um antropólogo, nem mesmo um arqueólogo. Era um psicanalista e aplicava suas idéias às mais diversas manifestações da natureza humana. O que ele tenta explicar e descrever é o comportamento daquele que poderíamos chamar, numa analogia algo irreverente, de Homo freudensis, diante da cultura, qualquer cultura. Um homem assediado por necessidades inconscientes, com sua ambivalência incurável, seus amores e ódios primitivos e apaixonados, mal contidos por coerções externas e sentimentos de culpa internos. Notas [1] Texto apresentado em seminário realizado no Instituto para o ensino e formação de psicanalistas da SPP (Sociedade Paraibana de Psicanálise). João Pessoa, maio 1999. [2] Isso pode ser visto claramente em exemplos tais como, o da criança que foi gerada para possibilitar um transplante de medula para sua irmã, ou no da avó que gestou o embrião de sua neta, diante da impossibilidade da filha de sustentar uma gravidez. Será que algum dos cientistas envolvidos no processo preocupou-se com a estruturação do psiquismo dessas crianças? O mesmo poderia ser dito em relação à produção de clones humanos. [3] Para Wilhelm Windelband, filósofo alemão contemporâneo de Freud, as Naturwissenchaften (ciências naturais) seriam nomotéticas porque investigam e baseiam-se em leis gerais e, em muitas delas, a matemática desempenha um papel importante, enquanto as Geisteswissenchaften (ciências do espírito) seriam idiográficas porque procuram compreender os objetos de seu estudo não como exemplos de leis universais, mas como eventos singulares; o seu método é o da história, uma vez que se ocupam da história humana e das idéias e valores individuais. Tais ciências tratam de eventos que nunca se repetem da mesma forma que não podem ser exatamente reproduzidos nem previstos. (Bettelheim, 1982: p.56). [4] O irmão de Ida Bauer, a Dora de Fragmentos da análise.... Bibliografia Anzieu, D. A Auto-Análise de Freud e a Descoberta da Psicanálise. Editora Artes Médicas. Porto Alegre, 1989. Bettelheim, B. Freud e a Alma Humana. Editora Cultrix, São Paulo, 1982. Bucher, R. O Preço da Cultura Segundo Freud. Revista Humanidades, n.16, ano V / 1998. Forrester, J. Freuds Women. Virago Press Limited. London, 1992. Freud, S. A Psicoterapia da Histeria. ESB. Imago. Vol.II. ----------. O Mal-Estar na Cultura. ESB. Imago. Vol.XXI. Gay, P. Freud: Uma Vida Para Nosso Tempo. Companhia das Letras. São Paulo, 1989. Lacan, J. Posición del Inconsciente. In Escritos 2. Siglo Veintiuno, duodécima edición, México, 1985, pág.808.
-------------------. La Ciencia y la Verdad. Ibid, pág.834. Masson, M.J. A Correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess, 1887- 1904. Imago Editora. Rio de Janeiro, 1986. Rouanet, P.S. Mal-Estar na Modernidade. Companhia das Letras. São Paulo, 1993. Savater, F. Lo moral y lo legal. Edição do dia 17 de fevereiro de 1998 de El Pais Digital. Periódico espanhol publicado na Internet: http://www.elpais.es |
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