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Os conselhos de Esculápio(1) |
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Tradução: Marilita Lúcia Calheiros de Castro Queres ser médico, meu filho? Essa aspiração é digna de uma alma generosa, de um espírito ávido pela ciência. Desejas que os homens te considerem um deus que alivia seus males e lhes afugenta o medo. Mas, pensastes no que se transformará tua vida? Terás que renunciar à vida privada: enquanto a maioria dos cidadãos pode, terminado o trabalho, distanciar-se dos importunos, tua porta estará sempre aberta a todos. A qualquer hora do dia e da noite virão perturbar teu descanso, teu lazer, tua meditação; já não terás hora para dedicar à família, aos amigos, ao estudo... Já não te pertencerás. Os pobres, acostumados a sofrer, te chamarão só em caso de urgência. Mas os ricos te tratarão como escravo encarregado de remediar seus excessos; seja porque têm uma simples indigestão, seja porque estão resfriados; farão com que te despertes e venhas a toda pressa, logo que sintam alguma moléstia. Terás que te mostrar interessado pelos detalhes mais comuns de sua existência; terás que lhes dizer se devem comer carne de boi ou peito de galinha, se lhes convém andar desse ou daquele modo. Não poderás ir ao teatro nem ficar doente: terás que estar sempre pronto a acudir, quando chamado. Eras rígido na escolha de teus amigos. Procuravas o convívio de homens de talento, de almas delicadas e de bons conversadores. Agora não poderás descartar aos chatos, aos pouco inteligentes, aos presunçosos, aos desprezíveis. O mal feitor terá tanto direito à tua assistência como o homem honrado: prolongarás vidas nefastas e o sigilo de tua profissão te proibirá impedir ou denunciar ações indignas das quais serás testemunha. Acreditas firmemente que com o trabalho honrado e o estudo atento poderás conquistar uma reputação: tem presente que te julgarão, não por tua ciência, mas pela casualidade do destino, pelo corte de tua roupa, pela aparência de tua casa, pelo número de teus criados pela atenção que dediques às conversas informais e aos gostos de teus clientes. Haverá os que desconfiarão de ti se não usas barba, outros se não procedes da Ásia; outros se acreditas nos deuses; outros se és ateu.
Não contes com o agradecimento de teus enfermos. Quando se curam, terá sido por sua própria robustez; se morrem fostes tu o culpado. Enquanto estão em perigo, te tratam como a um deus: te suplicam, te exaltam, te enchem de elogios. Apenas começam a convalescer já os estorvas. Quando se lhes fala dos honorários se aborrecem e te denigrem. Quanto mais egoístas são os homens mais solicitude exigem. Não penses que essa profissão tão dura te tornará um homem rico. Asseguro-te: é um sacerdócio, e não seria decente que tivestes os ganhos de um comerciante de azeite ou de um político. Compadeço-me de ti se te atrai o belo: verás o mais feio e repugnante que existe na espécie humana. Todos os teus sentidos serão maltratados. Terás que encostar o ouvido em peitos suados e sujos, respirar o odor das pobres favelas, os fortes perfumes das prostitutas; terás que palpar tumores, tratar de chagas verdes de pus, examinar urina, remexer em escarros, fixar o olhar e o olfato em imundícies, colocar o dedo em muitos lugares. Quantas vezes em um belo dia ensolarado, ao sair de uma representação de Sófocles, te chamarão para atender alguém acometido de cólicas abdominais, que te apresentará um urinol nauseabundo, dizendo satisfeito: ainda bem que tive a precaução de não jogar fora. Recordas então que terás que agradecer e mostrar todo teu interesse por aquela dejeção. Até a própria beleza das mulheres, consolo dos homens, se desvanecerá para ti. As verás pelas manhãs, desgrenhadas, desprovidas de maquiagem, com parte de seus atrativos espalhados pelos móveis do quarto. Deixarão de ser deusas para converterem-se em seres afligidos pela miséria, sem graça. Só sentirás por elas compaixão. O mundo te parecerá um grande hospital, uma assembléia de seres que se queixam. Tua vida transcorrerá à sombra da morte, entre a dor dos corpos e das almas, assistindo algumas vezes ao luto de quem está destroçado por haver perdido o pai, e outras vezes, a hipocrisia daquele que, à cabeceira do agonizante faz cálculos sobre sua herança. Pensa bem enquanto há tempo. Mas se, indiferente à fortuna, aos prazeres, à ingratidão; e sabendo que te verás, muitas vezes, só entre feras humanas, ainda tens a alma estóica o bastante para encontrar satisfação no dever cumprido, se te julgas suficientemente recompensado com a felicidade de uma mãe que acaba de dar a luz, com um rosto que sorri porque a dor passou, com a paz de um moribundo que acompanhastes até o final; se anseias conhecer o Homem e penetrar na trágica grandeza de seu destino, então, torna-te médico meu filho. Fonte:Textos Clássicos. Departamento de Bioética da Universidade de Navarra, Espanha. http://www.unav.es Esculápio/Asclépio foi um deus-herói muito antigo. Deve ter “vivido” no século XIII a C., pois seu nome foi citado na célebre expedição dos Argonautas. Ele se fixou em Epidauro onde atuou como médico e era chamado: o simples, o filantropíssimo. No templo dedicado ao deus Apolo existente ali, havia uma inscrição: “conhece-te a ti mesmo”, como um lembrete de que todos temos que despertar para a nossa identidade real. Entretanto, alguns atribuem estes conselhos ao próprio Hipócrates. |
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