| Ana O. e Breuer: momento inaugural na compreensão da relação médico-paciente | ||||||||||||
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Marilita Lúcia Calheiros de Castro Sumario Utiliza-se o clássico caso que marca o começo da psicanálise para demonstrar a importância da compreensão da relação médico paciente. A descrição do caso serve também para ilustrar o fenômeno da transferência e as conseqüências do seu desconhecimento na evolução do tratamento. Palavras chave Relação médico-paciente; Transferência; Contratransferência Introdução Para Alfred Lorenzer, o encontro entre Anna o ( o primeiro caso da psicanálise) e o Dr. Joseph Breuer (clínico geral em Viena e amigo de Freud) provocou o que ele denominou de reversão da relação médico-paciente. Qual o significado desta reversão? Isto só se torna claro quando a comparamos com a velha tradição médica. Até então, cabia ao médico levantar a anamnese, fazer perguntas e, às vezes, sem qualquer pronunciamento, examinar fisicamente e investigar silenciosamente. Ao enfermo restava apenas responder às perguntas. Com Anna O a situação se modifica, é ela quem escolhe o tema a ser abordado, numa atitude decisiva, raramente permitida aos pacientes pelos chamados médicos do corpo. Se antes o paciente precisava caber dentro de um esquema diagnóstico estabelecido, e o médico determinava o tratamento, agora a situação se reverte, pois o paciente também participa ativamente de seu tratamento. O primeiro contato entre médico e paciente, aquele que se organiza ao redor da história clínica, tem uma importância extraordinária. Esse primeiro contato, configurador da relação futura, é mediado por diversas variantes como o sexo (a diferença de sexo entre médico e paciente facilita os papéis de sedução inconscientes), a idade (uma grande diferença de idade evoca papéis filiais ou atitudes superprotetoras em ambos os pólos da relação), o nível cultural (a grande diferença pode facilitar a coisificação e a simples medicação, sem que se valorize a escuta). O médico ouve e com sua capacidade de compreensão, pode penetrar em diversos planos: o dos sintomas, o da patogenia, o das causas concorrentes, o das circunstanciais facilitadoras e desencadeantes, mas também o do oportunismo da enfermidade, e do sentido desta na biografia de seu paciente. Entretanto, a escuta só será valorizada se o médico tiver conhecimentos a respeito dos diversos fenômenos que fazem parte da relação médico-paciente. Este artigo abordará o momento inaugural da escuta terapêutica e um dos fenômenos que medeiam o encontro entre o médico e seu enfermo: o fenômeno transferencial (transferência/contratransferência). Define-se a transferência como o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica. A contratransferência seria o mesmo fenômeno, dando-se agora no sentido inverso, ou seja, do médico para o paciente. Verifica-se então, que tanto o paciente quanto o médico , reagem um ao outro baseados em aspectos de suas próprias histórias de vida e de suas personalidades. Procuraremos demonstrar isso ao longo de nossa exposição. O fenômeno transferencial foi descoberto por Sigmund Freud no decorrer da análise de seus enfermos, mas ele também é observado, ainda que em menor intensidade, nos tratamentos médicos convencionais. Neste sentido, o caso de Anna O serve como uma boa ilustração desde que seu médico, o Dr. Joseph Breuer era clínico geral. O artigo está idido em quatro partes. Na primeira abordaremos a estrutura familiar de Bertha Pappenheim (este era o nome verdadeiro da paciente) e alguns traços de sua personalidade; na segunda falaremos sobre sua doença; na terceira veremos alguns dados da biografia de Joseph Breuer e, na última parte, na conclusão, abordaremos a relação transferencial entre Anna O e Breuer. 1-Estrutra familar e traços de personalidade de Bertha Pappenheim. Ao nascer, seus pais já tinham uma filha de 10 anos que morreu quando Bertha contava 8 anos, e haviam perdido a Segunda aos 4 anos. Um ano após o nascimento da paciente, nasceu seu irmão caçula, que segundo os dados aportados por Lucy Freeman, foi criado como um príncipe. Bertha sempre foi muito apegada a seu pai que lhe ensinou a ler aos 4 anos de idade. A rivalidade com seu irmão aparece em seus depoimentos, quando se queixa de que seus estudos foram medíocres enquanto para ele, um estudante menos brilhante, não se pouparam quaisquer gastos. Queixava-se sobretudo, de que para ela, uma jovem inteligente e imaginativa, haviam sido destinados o piano e os bordados. Dizia que os antigos judeus que reduziam suas mulheres a escravidão, proibindo-as de estudar, estariam sujeitos a uma revanche da parte delas. Sua própria vida nos mostra essa revanche contra os comerciantes do tráfico de escravas brancas, contra os sionistas e as idéias ultrapassadas dos rabinos. Toda sua cólera era destilada em peças teatrais, artigos e críticas mordazes. Além das dificuldades de relacionamento com o irmão. Bertha não se dava muito bem com sua rígida genitora, mas devotava ao pai que a mimava, um amor verdadeiramente apaixonado. Jamais havia se enamorado, o que pode ser explicado pela intensa fixação paterna. Apresentava ainda uma obstinada e pueril oposição às prescrições médicas e à religião. Seu temperamento forte e altivo aparece numa frase escrita em 1922, se houver justiça no mundo de amanhã, esta será: as mulheres farão as leis e os homens trarão os filhos ao mundo. Sua dificuldade de identificação feminina é revelada pelo pseudônimo escolhido para assinar seus primeiros livros, Paul Berthold (tirado de suas próprias iniciais B. P. Invertidas) Berthold é também a versão masculina de seu nome. Outra de suas frases que assinalam sua insatisfação com o papel feminino é: ...Devido à natureza das coisas, as meninas são as que sofrem, os meninos são os que aproveitam a vida. Após recuperar-se de sua doença nervosa, Bertha dirigiu, a partir de 1895, um orfanato, fez várias viagens aos Balcãs, Oriente Médio e Rússia para fazer investigações sobre o tráfico de escravas brancas e sobre a prostituição. Em 1904 fundou a Liga de Mulheres Judias e três anos após, um estabelecimento de ensino filiado a essa organização. Foi responsável também pela criação de casas de recuperação de prostitutas. Todo esse trabalho social fez dela a fundadora do serviço social na Alemanha e uma das primeiras mulheres a lutar pelos direitos femininos, no início do século. Morou com sua mãe até o falecimento desta e morreu solteira em Frankfurt em 1936. 2-Período da doença
De julho a dezembro de 1880, Anna cuidou de seu pai que apresentava uma doença pulmonar grave. Passava as noites à sua cabeceira e dormia um pouco durante a tarde. Ficou tão extenuada que foi preciso mantê-la afastada de seu pai. Nessa época, apresentou acessos de tosse e períodos de sonolência e inquietação que duravam toda a tarde. Estes sintomas, entretanto, não chamaram a atenção da família, nem da própria paciente. Em dezembro ficou acamada e começou a apresentar uma série de sintomas, estrabismo, paralisias, contraturas e zonas de anestesia cutâneas. Falava de forma quase incompreensível, uma mistura de 4 ou 5 idiomas. Às vezes se comportava normalmente , mas parecia deprimida: outras, mostrava-se caprichosa, inquieta e dizia ver serpentes negras. Nesse momento Breuer foi chamado para tratar a paciente. A paciente passou a falar com seu médico em inglês, idioma que só ambos conheciam, mas entendia tudo o que lhe diziam em alemão. À tarde caía em um estado de sonolência que denominava de clouds e parecia em transe hipnótico. Breuer a visitava nessas ocasiões e ela lhe contava seus devaneios, geralmente histórias de uma jovem ansiosa ante a presença de pessoas enfermas. Quando despertava sentia-se aliviada, ela própria deu a estas conv diversas com Breuer, o nome de talking cure(cura pela palavra) e chimney sweeping(limpeza da chaminé). Em março estava bastante melhor, mas no dia 5 de abril a notícia da morte do pai causou-lhe um grande choque. Os parentes esconderam a verdade acerca do estado de seu pai e ela reagiu muito mal a isso. Dizia que lhe haviam roubado seu último olhar e suas últimas palavras. Passou 2 dias em estado estuporoso e recusava-se a falar com os parentes, alegando não entender sua língua nativa. Breuer era o único que aceitava e reconhecia, chegando a ter que alimentá-la. Dez dias após, Breuer teve que viajar e outro médico foi chamado. Anna comportou-se como se não o enxergasse. O médico tentou fazer-se notado, soprando-lhe a fumaça do cigarro no rosto. Ao que a paciente reagiu com uma crise de raiva e ansiedade. Quando Breuer retornou, passou a hipnotizá-la e ela lhe falava sobre as visões que a perturbavam, método que a deixava mais calma e aliviada. Outro dos sintomas apresentados era a impossibilidade de beber água, a paciente vivia de sucos e frutas. Certo dia, durante a hipnose, contou a Breuer sobre o início de seu sintoma. Havia visto o cão da governanta beber água em um copo dos que se usavam na casa, foi tomada de nojo, mas evitou falar com a senhora. Quando saiu do transe pediu um copo e bebeu normalmente. A partir de então, médico e paciente passaram a rastrear o início de cada sintoma e, um a um, eles foram desaparecendo. Em junho estava assintomática e recebeu alta. Alguns dias depois, voltou a ficar agitada e foi internada em um sanatório perto de Constanz, na Alemanha. Permaneceu internada de 12 de julho a 29 de outubro de 1882 e tomou altas doses de cloral e morfina para aplacar as dores de uma suposta neuralgia do trigêmeo . Breuer não voltou a tratar dela e segundo os informes do hospital, era uma paciente difícil que costumava criticar a ineficácia da medicina em relação a seus padecimentos e que passava horas diante da fotografia de seu pai. 3-Dados biográficos de Joseph Breuer (1842 1925) Joseph Breuer, além de colaborador de Freud nos Estudos sobre Histeria, era um clínico famoso em Viena e descobriu o controle automático da respiração pelo nervo vago (reflexo de Hering-Breuer). Pertencia à escola de Helmhnoltz, Du Bois Raymond e Ernst Brucke, onde predominava o pensamento mecanicista e materialista. Ou seja, para estes autores, nenhuma força, a não ser as físico-químicas, achava-se em ação ativa no organismo. Breuer, entretanto, admitia a existência de forças psicológicas atuando na etiologia de algumas doenças. Ele conheceu Freud nos anos em que este estagiava no laboratório de fisiopatologia de Brucke. Os pacientes de Breuer costumavam dizer que bastava entrar no seu consultório para que se sentissem melhor. Tinham-lhe grande confiança, não só como médico mas como pessoa meiga, calma e tranquilizadora. Não era alto, mas, como o pai e o irmão de Anna O., tinha o cabelo ruivo. O pai de Breuer era professor de religião da comunidade judia e casou com Bertha Semler, sua mãe que morreu de parto quando ele tinha 4 anos de idade. Sua esposa Matilde deu-lhe 5 filhos, uma das quais, recebeu o mesmo nome da avó. O que Breuer evitou dizer sobre sua famosa paciente foi que havendo lhe dado alta e estando prestes a viajar com sua esposa para as férias de verão, foi chamado às pressas à sua casa. Encontrou-a muito agitada, contorcendo-se com dores abdominais. Indagada sobre o que lhe passava, respondeu: ...agora é o filho de Dr. Breuer que está chegando. Assustado , Breuer retirou-se e entregou o caso a um colega. O fato lhe abalou tanto, que numa carta a Auguste Forel, ele diz: ...jurei nesta época que não voltaria a passar por tal provação.... Toda vez que tais pacientes o procuravam ele os encaminhava ao jovem Dr. Freud, que havia regressado de Paris, onde estudara com o famoso neurologista, Jean Martin Charcot. Mesmo assim, Breuer continuou a se interessar pela histeria e costumava discutir estes casos com Freud. A colaboração entre eles deu origem à Comunicação Preliminar, anterior aos Estudosonde os autores dizem, entre outras coisas, que: os histéricos sofrem, principalmente, de reminiscências. 4-Conclusão Para terminar, gostaríamos de falar sobre o fenômeno que perpassa toda a história de Anna O (Bertha Pappenheim) e Breuer: a relação transferencial. Breuer era o protótipo dos antigos médicos de família, atencioso e capaz de passar várias horas à cabeceira de seus enfermos. Entretanto, ele nada sabia da sexualidade infantil, do complexo de Édipo e da transferência, que só foram descobertos por Freud muito tempo após o tratamento de Anna O. Mas ele foi o primeiro médico capaz de escutar os segredos de sua paciente. Mais do que julgar, se tais idéias eram absurdas ou não, ele ouvia, evitando o método da sugestão hipnótica utilizado na época por Charcot. O desconhecimento dos fenômenos supracitados fez com que fugisse apavorado, diante da gravidez fantasmática de Anna O. Ele não entendeu o que havia acontecido, achava que não fizera nada para que a paciente se apaixonasse por ele, além do mais: ...o elemento sexual parecia ausente nela, diz em seu relato do caso. Ele ignorava que, é sobretudo o não dito que faz presença e que é capaz de provocar as reações menos esperadas num relacionamento interpessoal. A contratransferência, que também é definida por Lacan, como a soma dos preconceitos, das paixões, dos embaraços e mesmo da insuficiente informação do médico, atuava em Breuer. Ele foi imprudente o bastante, segundo conta Lucy Freeman, para levar sua paciente a passear pelo Prater, em companhia de sua filha. Inconscientemente, fazia com que ela se tornasse um membro de sua família. Não se sabe quais seriam as fantasias deste homem, cuja filha se chamava Bertha e cuja mãe, de mesmo nome, morrera ao dar a luz. Em uma apresentação pessoal para a Academia de Ciências, Breuer escreveu que sua mãe havia falecido na flor de sua juventude e beleza. Seus conflitos inconscientes, seu Édipo não analisado, funcionaram como ponto cego, fazendo com que ele não se desse conta do que ocorria. Um fato relatado por Freud dá testemunho do que foi o caso Anna O para Joseph Breuer. Certa vez, 10 anos após o incidente, Breuer chamou Freud para examinar uma paciente sua. Tratava-se de uma jovem, virgo intacta, que apresentava vômitos, amenorréia, obstipação intestinal, abdome timpânico e distendido. A família relatou que 4 meses atrás, uma das irmãs da paciente havia se casado. Freud compreendeu que a moça, por inveja da irmã reagira mediante uma identificação com sua situação de casada e fizera uma pseudociese. Entusiasmado com a presteza de seu diagnóstico, ele disse para o amigo: estamos diante de uma gravidez histérica!. A reação de seu colega mais velho foi surpreendente: pegou o chapéu e a bengala e retirou-se da casa sem ao menos se despedir. Era demais para o Dr. Breuer, a coisa se repetira. Ele também sofria de reminiscências. Leitura sugerida I Obras de Freud
II Obras de outros autores:
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